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Como as pesquisas de longa duração auxiliam na mitigação dos problemas enfrentados pela Caatinga?

Pesquisadores do PELD-Catimbau desenvolvem pesquisas sobre como uso insustentável de recursos naturais e mudanças climáticas afetam a diversidade e os bens e serviços ecossistêmicos providos pela Caatinga. Como resultado, fornecem subsídio para elaboração de protocolos de regeneração e de políticas públicas com linhas de ações associadas à adaptação às mudanças climáticas e de melhores práticas de uso da terra pelos agricultores.

Em regiões do semiárido (como ocorre no Parque Nacional do Catimbau) boa parte da população é de baixa renda e altamente dependente dos recursos naturais para sua subsistência, praticando a agricultura de corte-e-queima para incorporar nos solos os nutrientes da floresta queimada, coletando lenha para cozinhar e madeira para a confecção de cercas e casas e criando animais domésticos (sobretudo caprinos) que se alimentam da vegetação nativa1. Por exemplo, um estudo buscou avaliar o consumo per capita de lenha para toda a população do Parque2 (1200 pessoas), de desmatamento da vegetação por ano – apenas para suprir as demandas domésticas. Como resultado dessas práticas na região (como em outras áreas de Caatinga), o Parque apresenta uma paisagem composta por mosaicos formados por áreas de cultivo, florestas com diferentes idades de regeneração e florestas maduras3. “Dentro do Parque”, observa o biólogo Felipe Melo, professor da UFPE, “como o governo impõe restrições ao uso da terra, as famílias são mais pobres e mais dependentes dos recursos naturais que as de fora, mas também não conseguem sair de lá porque não têm para onde ir”.

A região também está vulnerável às mudanças climáticas: pesquisadores constataram um aumento de temperatura e redução de chuvas (ou seja, aumento de aridez) que tem uma interação negativa com as atividades humanas dentro do Parque (oriunda da não regulamentação fundiária)4. “O aumento de aridez reduz a produtividade do ecossistema e aumenta a pressão das populações humanas sobre a vegetação, que agora têm que explorar áreas maiores para manter a mesma produção, provocando um vórtice de degradação e vulnerabilidade que pode comprometer a sustentabilidade ecossistêmica” diz a ecóloga Inara Leal, da UFPE, vice coordenadora do PELD- Catimbau. “E esse cenário não é um quadro isolado, a trajetória de degradação que observamos no Catimbau, com a transformação da floresta em uma vegetação dominada por arbustos perfilhados, herbáceas colonizadoras agressivas e muitas vezes culminando com a desertificação e vulnerabilidade das populações humanas, ocorre não apenas em toda a Caatinga, mas em outras florestas secas do México, África e Índia” diz Leal.

Para entender melhor este cenário, o PELD Catimbau abarca uma série de iniciativas:

1) Descrição dos mecanismos pelos quais as atividades humanas promovem perturbações nesse ecossistema, como agricultura de corte-e-queima, coleta de lenha e madeira, exploração de produtos florestais não madeireiros e criação de caprinos;

2) Quantificação a magnitude do aumento da aridez com estações meteorológicas instaladas no Parque desde 2014;

3) Investigação dos padrões de diversidade taxonômica, filogenética e funcional de comunidades de plantas (árvores ou herbáceas) e animais (insetos, mamíferos, aves, répteis e anfíbios);

4) Perda de interações planta-animal (como polinização, dispersão de sementes, controle de pragas, decomposição, fertilidade dos solos) que são bens e serviços providos pela diversidade para as populações humanas;

5) Avaliação da produtividade, estoque e ciclagem de nutrientes;

6) Acompanhamento das mudanças no uso da terra e como se dá regeneração natural da floresta;

7) Mapeamento geográfico de todas essas informações e sua disponibilização para à sociedade através do sítio do PELD-Catimbau;

8) Ações com crianças e adultos das comunidades que vivem dentro e no entorno do Parque com projetos de extensão, campanhas de educação ambiental, divulgação científica, dentre outras.

Ao longo dos oito anos de execução, mais de 100 estudantes de graduação e pós-graduação da UFPE e de outras instituições parceiras executaram seus projetos no âmbito do PELD-Catimbau. Isso resultou em muitas dezenas de artigos publicados, além de livros e capítulos de livro. Também executamos edições anuais do curso de campo Ecologia e Conservação da Caatinga, formando, em cada edição, 20 estudantes de pós-graduação do Brasil e de outros países. O eixo central do curso é a simulação intensiva do “fazer científico” que vai desde a observação em campo dos fenômenos biológicos, passando pela formulação de perguntas científicas, escolha de métodos, desenho de experimentos, análise de dados, discussão pública, elaboração de relatórios, sistema de revisão por pares, editoração e publicação.

Todas essas iniciativas resultaram em uma produção científica profícua e prolífica, com dezenas de artigos científicos publicados em jornais de alto impacto e audiência, capítulos de livros e livros publicados por grandes editoras como Springer e Cambridge. De forma sintética, os resultados na escala dos municípios da Caatinga indicam que os principais fatores afetando as mudanças no uso da terra são econômicos (e.g. densidade de gado), demográficos (e.g. densidade populacional e distância para grandes cidades) e ambientais (e.g. temperatura). O analfabetismo também contribui para o aumento das áreas de pasto, as quais apresentam menor provisão de serviços ecossistêmicos que as áreas de floresta, com maior produtividade primária histórica (2000 e 2010). Áreas degradadas e/ou em regeneração também são mais produtivas que áreas de pasto. Esses achados sugerem que manter áreas de floresta é essencial para a provisão de serviços básicos.

Sobre o monitoramento de biodiversidade e de interações ecológicas, o aumento na aridez tem um efeito negativo sobre a diversidade taxonômica, filogenética e funcional das comunidades de plantas, insetos e vertebrados mais forte que o aumento no uso dos recursos naturais. A qualidade dos serviços ecossistêmicos providos por interações entre plantas e animais (polinização, dispersão de sementes, controle de pragas) também é reduzida com o aumento da aridez e do uso de recursos naturais (ou seja, das perturbações antrópicas). Esses achados indicam que é preciso manter o máximo de vegetação original possível, uma vez que a substituição da vegetação por outros tipos de uso da terra acelera o aumento da aridez e tem um efeito sinergético na redução de biodiversidade, funções e serviços ecossistêmicos.

“Muitos desses resultados podem subsidiar a gestão do PARNA Catimbau (e.g. plano de manejo) e políticas públicas em geral, tais como a necessidade: (1) de indenização e remoção das populações vivendo dentro das UCs de proteção integral, (2) eliminação ou controle da presença de animais domésticos dentro das UCs, (3) implementação de formas alternativas de uso do solo que não sejam baseadas na exploração de recursos florestais, (4) implementação de iniciativas voltadas à capacitação e adoção de melhores práticas agrícolas associadas à proteção dos solos, devolução de nutrientes, proteção das áreas em regeneração, entre outros. Todas essas políticas públicas são imprescindíveis no contexto de desenvolvimento sustentável do Semiárido” observa Marcelo Tabarelli, professor e coordenador do PELD, que desde 2012 percorre com frequência o Catimbau. “Políticas públicas já em vigor têm ajudado indiretamente a preservar a Caatinga, tais como os programas de transferência de renda, principalmente a aposentadoria rural, desaceleraram a exploração da caatinga e deixaram as famílias menos dependentes dos recursos naturais”, conclui Tabarelli.

A restauração da Caatinga também é uma atividade promissora, apesar de ainda pouco explorada pelos custos elevados e pelas peculiaridades do ambiente, sendo difícil ou inaplicável a implementação de técnicas de restauração de outros ambientes. Esforços para tornar a restauração desse ecossistema realidade também estão sendo realizados pelo NEXUS (imagem ao lado), um projeto vinculado ao PELD que abarca questões como controle de espécies invasoras, mapeamento de interações biológicas e manutenção da resiliência da Caatinga.

Referências:

1. FREIRE, Neison Cabral Ferreira et al. Mapeamento e análise espectro-temporal das unidades de conservação de proteção integral da administração federal no bioma caatinga. Brazilian Journal of Development, v. 6, n. 5, p. 24773-24781, 2020.

2. CAVALCANTE, B. Uso doméstico de recursos madeireiros em comunidades rurais em uma paisagem do semiárido nordestino. 2015. Tese de Doutorado. Msc thesis, Universidade Federal de Pernambuco-UFPE, Recife.

3. LEAL, I.R., Tabarelli, M., & Da Silva, J.M.C. 2003. Caatinga.

4. DE MOURA GARCIA, Ana Célia Saraiva et al. Vulnerabilidade ambiental em áreas de caatingas na unidade de conservação parna do Catimbau, Pernambuco, semiárido brasileiro. Holos Environment, v. 20, n. 4, p. 625-640, 2020.

Site do PELD: https://www.peldcatimbau.org/

Pesquisas no Catimbau ajudam a entender o papel das formigas cortadeiras na regeneração da Caatinga

Recentemente pesquisadores parceiros da Alemanha vieram ao PARNA do Catimbau para acompanhar as pesquisas desenvolvidas com as formigas cortadeiras na caatinga, e os efeitos que elas propiciam para a regeneração do ecossistema. Durante as atividades foram realizadas diversas escavações com o objetivo de acompanhar o comportamento delas no subterrâneo, assim como também, foram realizadas vistorias por drones, afim de observar as consequências que elas podem trazer para a paisagem. Confira abaixo um áudio da Prof. Inara Leal, no qual ela explica com maiores detalhes as atividades realizadas:

CNPq organiza webinar voltado para a América Latina sobre pesquisas ecológicas de longa duração

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do seu Programa De Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD), realiza encontro para ampliar o intercâmbio científico entre a comunidade de pesquisa ecológica na América Latina e ainda favorecer parcerias dentro da Rede Internacional de Pesquisas de Longa Duração – ILTER (rede internacional de sítios de pesquisa ecológica de longa duração que congrega cerca de 40 países membros).

O Webinar Pesquisa Ecológica de Longa Duração – América Latina será realizado de forma virtual nos dias 8 e 12 de novembro de 2021 e busca coordenar esforços contínuos de forma aberta e colaborativa para assegurar que os estudos ecológicos de longo prazo sejam efetivamente conhecidos e que seus resultados estejam totalmente disponíveis. Além disso, é uma importante oportunidade para dar visibilidade aos trabalhos realizados na América Latina sobre a temática junto aos demais países integrantes da Rede ILTER. O Peld Catimbau estará sendo representado pela palestra do prof. Marcelo Tabarelli, que ocorrerá no dia 12/11 as 10 horas da manhã.

Em parceria com o ILTER e com realização da Finatec, o evento ocorrerá por meio da plataforma Zoom com apresentações que abrangem ecossistemas marinhos e costeiros, aquáticos continentais e terrestres, e temas como conservação da biodiversidade, uso sustentável dos recursos naturais, mudanças globais e interações ecológicas.

A pesquisa ecológica em longo prazo é especialmente importante para enfrentar os problemas emergentes em larga escala, tais como: a gestão de recursos naturais para uma população humana em rápido crescimento, a extinção em massa de espécies, o manejo de recursos naturais e a detecção, mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

As inscrições podem ser feitas por meio do site do evento – https://www.ilter.com.br– até o dia 03/11/2021

Novo alojamento Peld Catimbau

Os pesquisadores do Peld Catimbau possuem agora um novo alojamento que serve como base para auxiliá-los durante as coletas em campo. Trata-se de uma casa que fica localizada próximo a entrada do Parque Nacional do Catimbau e conta com cozinha, banheiro, dois quartos, que acomodam até 8 pessoas por grupo e um amplo terreno. A casa possui ainda espaço reservado para triagem de material e sala de estudos. Na parte externa, há ainda, espaço para a acomodação de equipamentos necessários às pesquisas, além de possuir no terreno uma casa de vegetação e um viveiro de mudas com sistema de rega controlada.

Abaixo algumas imagens das novas instalações:

Podcast de contos sobre Ecologia é criado por pesquisadores do Peld Catimbau

O Podcast Eco.ntos é um projeto de extensão que recebe o apoio do ProExt da Universidade Federal da Bahia. Foi idealizado em 2020 por estudantes de ecologia, como uma maneira divertida de divulgar ciência, mas agora conta com uma equipe super diversa, você vai ouvir as mais divertidas histórias, além de descobrir coisas novas sobre a natureza, viajando por lugares fantásticos, desde o sertão da Caatinga até a Floresta Amazônica. Entre os contos, está: Os bodes do Catimbau, que aborda de maneira leve e divertida a relação entre os bodes que vivem no parque e os pesquisadores que ali trabalham. Esse projeto é voltado principalmente para o público infanto-juvenil, mas garantimos que as histórias conseguem entreter e capturar a atenção de qualquer um! Prepare seus ouvidos e sua imaginação e venha com a gente nessa aventura!

Você pode escutar os episódios no Spotify e no Youtube, através dos seguintes links:

Spotify

Youtube

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E você também pode seguir o projeto no Instagram

Pesquisador do Peld Catimbau participa de Webinar sobre a restauração da Caatinga

No ultimo dia 19 de maio ocorreu o Webinar “Restauração de bioma na Cop-15 da biodiversidade: a caatinga em foco”, em preparação para a COP-15 “Conferência das Partes da ONU” , que será realizado em dezembro em Conpenhague (Dinamarca), para definir uma agenda global de ações para controlar o aquecimento do planeta e garantir a sobrevivência da espécie humana. Esse Webinar organizado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) teve também o intuito de comemorar o dia Internacional da Biodiversidade, celebrado nesse dia 22 de maio, o webinar contou com a presença do pesquisador do Peld Catimbau prof. Felipe Melo, além de Pedro Brancalion (ESALQ/USP), Severino Ribeiro (CEPAM), Ludmila Pugliese (PACTO) e Renato Garcia (UNIVASF).

O evento teve como objetivo discutir os desafios e oportunidades para que o Brasil promova uma agenda de restauração ampla e consistente para a caatinga, bem como os caminhos para que o país reassuma seu papel global de liderança ambiental via o fortalecimento da restauração.

Para assisitir ao webinar, basta acessar aqui: Webinar “Restauração de bioma na Cop-15 da biodiversidade: a caatinga em foco” – YouTube

Bodes domésticos podem ter pouco impacto sobre a redução da diversidade de plantas na Caatinga

Em artigo publicado por Davi Jamelli e colaboradores foi analisado o comportamento alimentar e de uso dos habitats de bodes domésticos no PARNA Catimbau, a fim de compreender como esses animais impactam na modificação da vegetação da Caatinga. O experimento contou com o rastreamento dos animais via GPS. De acordo com o estudo ficou constatado que os animais usam preferencialmente as áreas abertas próximas as casas dos seus donos. e seu impacto na comunidade de plantas podem ser insignificantes porque se alimentam principalmente de plantas amplamente disponível em ambientes modificados. A área de alcance dos rebanhos pode chegar até 95 hectares. Segundo os autores, o estudo sugere que os bodes domésticos podem ser considerados moradores de paisagens modificadas pelo homem, forrageando perto de comunidades, em áreas abertas onde espécies abundantes de plantas prosperam. Com isso, os autores concluem que a extensa pecuária caprina na Caatinga pode ter pouco impacto na vegetação natural e pode ser gerida de forma sustentável sob a prática de gestão tradicional.

Para conferir o artigo, acesse a sessão publicações em: Artigos publicados em periódicos científicos

Espécies com rebrota na Caatinga podem possuir extensa propagação clonal

Recentemente o pesquisador Renato Vanderlei e colaboradores publicaram um artigo analisando as espécies com rebrotas no PARNA do Catimbau e evidenciaram que o que pareciam serem rebrotas de espécies de Pityrocarpa moliniformis, popularmente conhecida como Canzenzo na região, na verdade eram conjuntos condensados de brotos de raízes conectados por meio de redes complexas de raízes horizontais rasas, longas e ramificadas. Foram mapeados até 738 brotos de raízes conectados que somavam até 910 m de comprimento de raíz. Os resultados dos autores sugerem que a floresta seca da Caatinga suporta uma proporção relativamente alta de espécies rebrotando, algumas delas capazes de se propagar clonalmente e desempenhando um papel no nível do ecossistema, respondendo à regeneração florestal precoce e alta abundância / biomassa em regeneração e florestas antigas.

O artigo pode ser acessado na sessão publicações em artigos publicados em periódicos científicos

Pesquisadora do Peld Catimbau é comtemplada com apoio financeiro da Rufford Foundantion

A pesquisadora do Peld catimbau Jakelyne Suelen Bezerra de Sousa foi comptemplada com uma bolsa de pesquisa ofertada pela Rufford Foundation, uma fundação responsável por apoiar diversos projetos voltados para a conservação ambiental pelo mundo. Tal bolsa é bastante concorrida entre os pesquisadores, o que aumenta a importância dessa conquista para o desenvolvimentos de pesquisas na Caatinga.

O projeto da pesquisadora Jakelyne é intitulado “Agricultura de Corte e Queima e Resiliência da Floresta Seca da Caatinga: Implicações para a Sustentabilidade Socioecológica” e tem como principais objetivos compreender o efeito da agricultura de corte e queima na regeneração florestal, avaliando o banco de sementes, a chuva de sementes e a rebrota. Em particular, compreender como a agricultura de corte e queima afeta a regeneração da floresta (ou seja, resiliência) e a persistência de povoamentos de floresta secundária é fundamental para a conservação da biodiversidade. Esse conhecimento também é necessário para melhorar a prestação de serviços ecossistêmicos importantes, como biomassa acima do solo e fertilidade do solo; serviços essenciais para garantir a sustentabilidade da agricultura de corte e queima e o bem-estar das populações locais. A produtividade do ecossistema e da agricultura depende da regeneração da floresta, por isso é essencial entender os impulsionadores desse processo.

Em breve teremos os resultados que possam elucidar melhor esses processos e estaremos divulgando por aqui, por enquanto parabenizamos a pesquisadora e toda a sua equipe e orgulhosos pela contribuição de mais conhecimentos sobre a nossa tão amada Caatinga.